Nelson Gobbi

Os diferentres ritmos do Nordeste

O Ceará Music, evento que coloca o Nordeste definitivamente na rota dos grandes festivais brasileiros, chega ao final de sua terceira edição com números impressionantes. Com uma infra-estrutura que ocupa uma área de cem mil metros quadrados no Hotel Marina Park, em Fortaleza, público estimado em uma média de trinta mil pessoas por dia, e investimento total de mais de R$ 3 milhões, o festival trouxe novamente à capital cearense algumas das principais bandas do pop nacional, como Paralamas do Sucesso, Los Hermanos, Charlie Brown Jr, Capital Inicial, Kid Abelha, Titãs, Jota Quest, Cidade Negra, Lulu Santos e Skank.Mas, nem só de grandes atrações vive o festival, que tradicionalmente abre espaço para as grupos independentes, escolhidos em uma seletiva prévia com bandas de todo o país, se revezando em um palco menor, montado na direção oposta ao principal. Bandas que se destacam em edições anteriores têm a chance abrir os principais shows das quatro noites. Este ano foi a vez das bandas locais Djamba, Jumenta Parida, Alegoria da Caverna e Rebel Lion. "O incentivo aos grupos locais é enorme, porque além da oportunidade de mostrar o nosso trabalho, o festival nos dá a chance de observar o esquema profissional dos grandes grupos", diz Thiago Mancha, que cumpriu dupla jornada no evento, como repórter de uma TV local e vocalista da banda Djamba. A diversidade de ritmos do festival se extende às bandas que buscam seu espaço, procedentes de várias regiões do Brasil. O grupo carioca Som da Rua, único representante da região sudeste, compara a situação das bandas independentes no festival com a cena independente do Rio de Janeiro: "A cena de Brasília só tem força por causa do festival Porão do Rock, da mesma forma que os grupos independentes de Natal têm projeção por conta do MADA. É um absurdo a gente ter que vir pro Ceará para participar de um festival independente", indigna-se o vocalista Liô Mariz. Para Fred Cruz, vocalista do grupo brasiliense Mansão Jacobina, que participa do Ceará Music pela segunda vez, estar um evento deste porte pesa no currículo de qualquer banda que aspire vôos mais altos: "Mesmo em Brasília, que tem peso dentro do rock nacional, a participação em um festival como este acrescenta muito na carreira da banda. É uma boa oportunidade para conseguir a atenção de um diretor de uma grande gravadora, o que seria ótimo, desde que tivéssemos a oportunidade de manter autonomia do nosso trabalho". Uma das maiores surpresas do Festival, o grupo de Juazeiro do Norte (CE) Dr Raiz - que une rock pesado a ritmos regionais, e perfila instrumentos elétricos com o pífano, a zabumba e o triângulo - aproveita o festival para mostrar um pouco da cultura e da história de sua região. "A nossa música têm influências muito variadas, mas a gente optou por dar ênfase a esse regionalismo, talvez pela nossa aproximação com os folguedos, reizados, as lapinhas e as bandas cabaçais comuns no interior do Ceará", explica o cantor Júnior Boca, que realiza performances cênicas durante o show, vestido de cangaceiro e beato.

Mas o Ceará Music não dá oportunidade apenas aos grupos novos. Alê Muniz, paulistano radicado em São Luiz há mais de quinze anos, que canta profissionalmente desde o fim dos anos 80, já tem dois discos gravados e planeja lançar outro no ano que vem, com o apoio do "conterrâneo" Zeca Baleiro. "Tenho um material selecionado e pretendo entrar em estúdio em dezembro, após uma turnê pela Holanda. Acho que o festival pode chamar a atenção de empresários, além de servir para quebrar um pouco do estereótipo da música nordestina, principalmente no Sul e Sudeste". O repórter viajou a convite da organização do Festival.

 
 
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